O clarinetista Francisco Luan Lima, 24, da Orquestra Filarmônica Estrelas da Serra (OFES) foi aprovado em dois concursos das Forças Armadas do Brasil para ingresso em 2021. Ele foi o único cearense a passar para Sargento Músico Fuzileiro Naval da Marinha do Brasil e obteve a primeira colocação enquanto que no concurso do Exército, ele foi o sétimo colocado.
Os resultados obtidos pelo croataense datam de 2006, quando Luan iniciou os seus estudos em flauta doce no Projeto Vamos Fazer Arte em Croatá, com o professor Silvério Oliveira. No ano seguinte, ele recebeu o convite para ingressar na banda de música municipal João Otaviano.
O talento de Luan foi percebido pelo maestro Hélio Júnior, da Estrelas da Serra, que na formação da orquestra, convidou Luan para tocar clarinete em 2009. A partir daí, ele deslanchou como multi-instrumentista e passou também a ser um dos instrutores do projeto social da Associação Arte em Pauta, onde lecionou aulas de vários instrumentos e demonstrou compromisso e disciplina em suas funções.
Hélio Júnior confirma as qualidades do músico e a sua dedicação, “Luan foi aluno da primeira turma do projeto da nossa instituição. Ele, desde muito pequeno, se destacou como instrumentista, sonoridade ímpar, domínio técnico espetacular em todos os instrumentos que se propunha a aprender”. “Sempre imaginei que ele alçaria voos além da nossa instituição e do nosso município. Ficamos pequenos demais pra ele. Acredito ainda, que ele vai bem mais longe do que ele está agora”, pontuou o maestro.

Luan Lima no ensaio da Orquestra Filarmônica Estrelas da Serra (OFES)
De família humilde, Luan Lima foi criado pelos avós com muito amor e isso também se refletiu em seu comportamento, com muitas demonstrações de positividade e otimismo para encarar a vida, que o próprio Luan atribui à natureza as suas atitudes determinadas.
“A natureza traz uma energia boa para os seres humanos que prestam a atenção nela. De vez em quando, você me pega olhando para a lua, o sol, para o movimento das nuvens, das matas. Isso me traz muita positividade e energia”. “E eu encaro os problemas de forma mais leve, tendo solução ou não”, afirma o músico.
Luan é um dos membros mais atuantes do projeto social em Croatá e, ele explica, que as atividades musicais desenvolvidas lá contribuíram para que ele pudesse sonhar algo maior [a inscrição nos concursos], pudesse realizar o seu sonho e agradece isso. “Eu agradeço porque além do projeto orientar qual o rumo a pessoa vai conseguir, ele dá um norte pra gente, com estrutura, instrumento, até uma palavra de motivação que me ajudou bastante”.
Ele optou pela Marinha do Brasil porque também desde criança admirava a farda branca da corporação e lembra com afeto a roupa que o seu primeiro maestro José Ferreira, de Carnaubal. Luan se apresentará no dia 5 de abril e se juntará a Cleison Bezerra, que também foi seu colega na orquestra e foi o primeiro aluno do projeto a ingressar na Marinha do Brasil, em 2018.
Luam ao lado do maestro José Ferreira
Diante dos bons resultados obtidos pelos dois, hoje na Associação Arte em Pauta já existe um grupo de estudos com os participantes do projeto, que também almejam fazer o mesmo concurso.
20 anos depois, Luan reencontra o pai
As poucas oportunidades que o município de Croatá oferece para os jovens, não apenas para aqueles com perfil socioeconômico de Luan, de uma família de baixa renda, mas, de modo geral, a tendência natural dos jovens após a conclusão do ensino médio é deixar a cidade e tentar uma melhor sorte em outras cidades.
Foi o que aconteceu com a mãe de Luan, que precisou muito cedo ir para o Rio de Janeiro para buscar melhores condições de vida, por essa razão teve que deixar o pequeno Luan com os seus pais. Luan foi criado pelos avós e sem conhecer o seu pai também.
As visitas da mãe eram raras, as condições financeiras não permitiam que ela pudesse visitá-lo com mais frequência, mas ela sempre dava um jeito de ajudá-lo na manutenção de algumas despesas.
Luan encarou a sua realidade, sem reclamar de nada ou lamentar a ausência dos pais. Os seus avós são uma referência para ele no incentivo a participar dos projetos. Luan os trata também por pai e mãe. “Sem os meus avós eu não teria seguido nesses caminhos. Ela [a avó] que me colocava nesses projetos, qualquer que fosse, e o meu pai [o avô] também sempre dava apoio. Isso fez muita diferença em minha vida”, reconhece.

Lúcia Pereira da Silva, avó-mãe adotiva, abraça Luan na sua formatura de Pedagogia
Luan desenvolveu diversas habilidades na música e passou a compor letras e arranjos musicais. Com as composições, novas oportunidades surgiram, Luan resolveu participar do edital do Prêmio Alberto Nepomuceno, da Secretaria de Cultura do Estado. Ele inscreveu uma de suas composições. O resultado foi o melhor possível: o seu trabalho de composição de arranjos foi premiado.
Com o prêmio em dinheiro, Luan resolveu realizar mais que um sonho. Na verdade, ele sentiu a necessidade de conhecer o seu pai, após mais de 20 anos que não o via e era algo que Luan precisava resolver para tornar a sua história de vida ainda mais feliz.
E viajou para o Rio de Janeiro, levando consigo um coração cheio de expectativa para pela primeira vez conhecer o seu genitor. Movido pelo desejo de ver o pai, o encontro não poderia ter sido melhor. Superou as suas expectativas, não apenas pela receptividade que teve, pelo fato de ter conhecido o seu bisavô e outros parentes, mas por descobrir que o seu pai é um exímio sambista e que outros membros da família também têm uma veia artística. “Eu nunca nem tinha visto, nem meu pai e nem a minha família. Eu conheci a raiz toda da minha família de sangue, é como se eu estivesse lá no caule perto dos galhos e fosse conhecer mesmo a fundo a semelhança de algumas coisas, comportamento”, compara.
(Fotos: Arquivo pessoal)
(Fonte: correioibiapaba)
